Humus

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Author: Brandão, Raul,1867-1930
Format: eBook
Language: Portuguese
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Nota de editor: Devido existncia de erros tipogrficos neste texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Maio 2012) Reservados todos os direitos de reproduco nos paizes que adheriram Conveno de Berne; Brasil: Lei n. 2577 de 17 de Janeiro de 1912; Portugal: Decreto de 18 de Maro de 1911. HUMUS DO AUTOR EDIES DA RENASCENA PORTUGUESA O Cerco do Porto, contado por uma testemunha, o Coronel OwenPrefacio e notas (2. ed.). 1817A Conspirao de Gomes Freire (3. ed.). El-Rei Junot (2. ed.). Memorias, 1. vol. (2. ed.). Humus (2. ed.). RAUL BRANDO Humus O que tu vs bello; mais bello o que suspeitas; e o que ignoras muito mais bello ainda. D'um autor desconhecido. 2. EDIO EDITORES Renascena PortuguesaPorto ANNUARIO DO BRASILRIO DE JANEIRO AO MESTRE COLUMBANO A VILLA 13 de novembro Ouo sempre o mesmo ruido de morte que devagar roe e persiste... Uma villa encardidaruas desertaspateos de lages soerguidas pelo unico esforo da ervao castelorestos intactos de muralha que no teem serventia: uma escada encravada nos alveolos das paredes no conduz a nenhures. S uma figueira brava conseguiu meter-se nos intersticios das pedras e d'ellas extrae succo e vida. A torrea porta da S com os santos nos seus nichosa praa com arvores rachiticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutaveis teias de silencio e tedio e uma cinza invisivel, manias, regras, habitos, vae lentamente soterrando tudo. Vi no sei onde, n'um jardim abandonadoinverno e folhas seccasentre buxos do tamanho d'arvores, estatuas de granito a que o tempo corroera as feies. Puira-as e a expresso no era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforo enorme para se arrancarem pedra. Na realidade isto como Pompeia um vasto [10] sepulchro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos... Sob estas capas de vulgaridade ha talvez sonho e dr que a ninharia e o habito no deixam vir superficie. Afigura-se-me que estes sres esto encerrados n'um involucro de pedra: talvez queiram falar, talvez no possam falar. Silencio. Ponho o ouvido escuta e ouo sempre o trabalho persistente do caruncho que roe h seculos na madeira e nas almas. 15 de novembro As paixes dormem, o riso postio creou cama, as mos habituaram-se a fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e neutralisa, e s um ruido sobreleva, o da morte, que tem deante de si o tempo ilimitado para roer. H aqui odios que minam e contraminam, mas como o tempo chega para tudo, cada anno minam um palmo. A paciencia infinita e mete espiges pela terra dentro: adquiriu a cr da pedra e todos os dias cresce uma polegada. A ambio no avana um p sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, no se lhe ouvem os passos. Na aparencia a insignificancia a lei da vida; a insignificancia que governa a villa. a paciencia, que espera hoje, amanh, com o mesmo sorriso humilde:Tem pacienciae os seus dedos ageis tecem uma teia de ferro. No h obstaculo que a esmorea.Tem pacienciae rodeia, volta atraz, espera anno atraz d'anno, e olha com os mesmos olhos sem expresso e o mesmo sorriso estampado. Paciencia... paciencia... J a mentira d'outra casta, [11] faz-se de mil cres e toda a gente a acha agradavel.Pois sim... pois sim... No se passa nada, no se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os habitos lentamente acumulados. O tempo moe: moe a ambio e o fel e torna as figuras grotescas. Reparem, v-se daqui a villa toda... L est a Adelia, o Pires e a Pires como figuras de cera. Ninguem mexe. N'um canto mais escuro a prima Angelica no levanta a cabea de sobre a meia. Tanta inveja ruminou que desaprendeu de falar. Chega o ch, toma o ch, e apega-se logo mesma meia, a que mos caridosas todos os dias desfazem as malhas, para ella, mal se ergue, recomear a tarefa. Um diauma semanaum seculoe s o pendulo invisivel vae e vem com a mesma regularidade implacavelp'ra a morte! p'ra a morte! p'ra a morte! Passou um minuto ou um seculo? Sobre o granito salitroso assenta outra camada denegrida, e as horas caem sobre a villa como gtas d'agua d'uma clepsydra. De tanto vr as pedras j no reparo nas pedras. A morte roda na ponta dos ps e ninguem ouve seus passos. Todos os dias os leva, todos os dias toca a finados. O nada espera e a D. Procopia a abrir a boca com somno, como se no tivesse deante de si a eternidade para dormir. Tudo isto se passa como se tudo isto no tivesse importancia nenhuma, tudo isto se passa como se tudo isto no fsse um drama e todos os dramas, um minuto e todos os minutos... No h annos, h seculos que dura esta bisca de trese os gestos so cada vez mais lentos. Desde que o mundo mundo que as velhas se [12] curvam sobre a mesma meza do jogo. O jogo banal a biscao jogo o da morte... O candieiro ilumina e a sombra roe as phisionomias, a magestosa Theodora, a Adelia, a Eleutheria das Eleutherias, o padre. Salienta-se do escuro uma boca que remoe, a da D. Bibliotheca. Os padres exaltam-na, a Egreja exalta a sua caridade, que rebusca a desgraa para lhe dar tres vintens. S destingo, despegadas dos craneos, as orelhas do respeitavel Elias de Melo e do impoluto Melias de Melo, lividos como dois fantasmas. Ambos regulam a consciencia como quem d corda a um relogio. Dividas so dividas. Tudo isto parece que fluctua debaixo d'agua, que esverdeia debaixo d'agua. A luz do candieiro ilumina as mos da D. Leocadia, que pe acima de tudo o seu dever, e que leva para casa uma orf a quem sustenta e que lhe entrapa as pernas: osseas e seccas enchem a sala toda, o mundo todo... No sei bem se estou morto ou se estou vivo... Decorre um anno e outro anno ainda. O relento sabe bem, e o tempo passa, o tempo gasta-as como o salitre aos santos nos seus nichos. Se o desespero augmenta no se traduz em palavras. A D. Procopia odeia a D. Bibliotheca, mas nem ella sabe o que est por traz d'aquelle odio, contido pelo inferno. Toda a gente se habitua vida. Matar matava-a eu, mas varias palavras me deteem. Detem-me tambem um nada... Chegamos todos ao ponto em que a vida se esclarece luz do inferno. Mas ninguem arrisca um passo definitivo. As velhas com o tempo adquiriram a mesma expresso, com o tempo chegaram a temer um desenlace. Debruadas sobre a meza as figuras no bolem. No bolem outras figuras que se envolvem [13] no escuro, e o que me interessa no so as palavras do padreJogo;nem o que a Adelia diz baixinho Eleutheria, para que a velha temerosa oua:A nossa Theodora est cada vez mais moa!...o que me interessa so as figuras invisiveis: a dr d'essas figuras imoveis, e sobre ellas outra figura maior, curva e atenta, que ha seculos espera o desenlace. A villa petrifica-se, a villa abjecta cria o mesmo bolor. Mora aqui a insignificancia e at insignificancia o tempo imprime caracter. Moram na viella ingreme e cascosa, que rev humidade em pleno vero, velhas a quem s restam palavras, presas, alimentadas, encarniadas, como um doido sobre uma cora de lata que lhes enche o mundo todo. Mora d'um lado o espanto, do outr o absurdo. E todos uma afastam e repelem de si a vida. Mora aqui a Telles que passa a vida a limpar os moveis, s e fechada com os moveis reluzentes, talvez resto d'um sonho a que se apega com desespero, e velhas s mesuras, s baba, s rancor. Ter uma mania e pensar n'ella com obstinao! Creal-a. Ter uma mania e vl-a crescer como um filho!... Mora aqui a D. Restituta, sempre a acenar que sim vida, e a Ursula, cuja misso no mundo fazer rir os outros. Cabem aqui sres que fazem da vida um habito e que conseguem olhar o co com indiferena e a vida sem sobresalto, e esta mixordia de ridiculo e de figuras somiticas. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo, que de quando em quando sae do torpr e clama:O inferno! o inferno!Moram as Telles, e as Telles odeiam as Souzas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer [14] cortezias. Moram as Albergarias, e as Albergarias s teem um fim na existencia: estrear todos os semestres um vestido no jardim. Moram os que moem, remoem e esmoem, os que se fecham pressa e por dentro com uma mania, e os que se aborrecem um dia, uma semana, um anno, at chegar a hora pacata do solo ou a hora tremenda da morte. Mora aqui o egoismo que faz da vida um casulo, e a ambio que gasta os dentes por casa, o que enche a existencia de rancores e, atraz d'anno de chicana, consome outro anno de chicana. Cabem aqui dentro as velhas scismaticas, atraz de interesses, de paixes ou de simples ninharias, dissolvendo-se no ether, e logo substituidas por outras velhas, com as mesmas ou outras plumas nos penantes, com os mesmos ou outros ridiculos, fedorentas e maniacas; os homens a quem se foram apegando pela vida fra dedadas de mentira, promptos para a covae o Gabiru e o seu sonho. Cabe aqui o ceu e as lambisgoias com as suas mesuras, a morte e a bisca de tres. E cabe aqui tambem uma velha creada, que se no tira deante dos meus olhos. Obsidia-me. Carrega. Obedece. Serve as outras velhas todas. A Joanna uma velha estupida. Serviu primeiro na villa, serviu depois na cidade. Serviu um anthropologista exotico, que fundira cem contos a juntar caveiras, e de quem a Joanna dizia ao amollecer-lhe os edmas dos ps:Este senhor um 2. Cames!Serviu a D. Herminia e a D. Hermengarda. Serviu com uma saia rta, as mos sujas de lavar a loua, uma camisa, os usos e seis mil reis de soldada. Lavou, esfregou, cheira mal. Serviu o tropel, a miseria, o riso, que caminha para a morte com um vestido d'aparato e um chapeu de plumas na cabea. [15] Para contar fio a fio a sua historia bastava dizer como as mos se lhe fram deformando e creando ranhuras, nodosidades, codeas, como as mos se foram parecendo com a casca d'uma arvore. O frio gretou-lh'as, a humidade entranhou-se, a lenha que rachou endureceu-lh'as. Sempre a comparei macieira do quintal: inocente e util e no ocupa logar. A vida gasta-a, corroem-na as lagrimas, e ella est aqui tal qual como quando entrou para casa da D. Hermengarda. Faz rir e faz chorar. Os meninos borraram-naadorou os meninos. Os doentes que ninguem quer aturar, atura-os a Joanna. J ninguem extranhanem ellaque a Joanna aguente, e a manh a encontre de p, a rachar a lenha, a acender o lume, a aquecer a agua. H sres creados de proposito para os servios grosseiros. Por dentro a Joanna s ternura, por fra a Joanna denegrida. A mesma fealdade reveste as pedras. Reveste tambem as arvores. uma velha alta e secca, com o peito raso. O habito de carregar cabea endireitou-a como um espeque, o habito das caminhadas espalmou-lhe os ps: a recoveira assenta sobre bases solidas. Parece um homem com as orelhas despegadas do craneo e olhos inocentes de bicho. d'estas creaturas que do aos outros em troca da soldada o melhor do seu sr, que se apegam aos filhos alheios e choram sobre todas as desgraas. E ainda por cima dedicam-se, e quando as mandam embora, porque no teem serventia, pem-se a chorar nas escadas. preciso escodeal-aasseverou a D. Hermengarda quando lhe foi em pequena para casa. Escodeia-a. Noite velha e j ella bate de cima com a tranca no soalho, a chamal-a.E no te servindo a porta da rua a serventia dos ces.Mas ella [16] apega-se. Nunca teve outra ama como aquella senhora. Venera-a. Annos depois diz das pancadas:Merecia-as.J no preciso chamal-a: a Joanna ergue-se n'um sobresalto, alta noite, noite negra, e dorme com um olho fechado e outro aberto. Velha, tonta, abre de quando em quando os olhos, pe o ouvido escuta num movimento instinctivo, espera de uma imaginaria ordem: ouve sempre a voz da D. Hermengarda a chamal-a. Mal se comprehende que depois d'uma vida inteira, esta mulher conserve intacta a inocencia d'uma creana e o pasmo dos olhos flr do rosto. Trambulhes, fome, o frio da pobrezao peore, apezar de amolgada, com uma saia de estamenha, no pescoo pelles, as mos gretadas de lavar a loua, uma coisa que se no exprime com palavras, um balbuciar, um riso... Misturou vida ternura. Misturou a isto a sua propria vida. Aqueceu isto a bafo. Tem as mos como cepos. 16 de novembro Debaixo d'estes tectos, entre cada quatro paredes, cada um procura reduzir a vida a uma insignificancia. Todo o trabalho insano este: reduzir a vida a uma insignificancia, edificar um muro feito de pequenas coisas deante da vida. Tapal-a, escondel-a, esquecel-a. O sino toca a finados, j ninguem ouve o som a finados. A morte reduz-se a uma cerimonia, em que a gente se veste de luto e deixa cartes de visita. Se eu podesse restringia a vida a um tom neutro, a um s cheiro, o mfo, [17] e a villa a cr de mataborro. Seres e coisas criam o mesmo bolr, como uma vegetao cryptogamica, nascida ao acaso n'um sitio humido. Teem o seu rei, as suas paixes e um cheirinho suspeito. Desaparecem, resurgem sem razo aparente d'um dia para o outro n'um palmo do universo que se lhes afigura o mundo todo. Absorvem os mesmos saes, exhalam os mesmos gazes, e supuram uma escorrencia phosphorecente, que corresponde talvez a sentimentos, a vicios ou a discusses sobre a imortalidade da alma. Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos habitos. Construimos ao lado da vida outra vida que acabou por nos dominar. Vamos at cva com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, teem a espessura de montanhas. So as palavras que nos conteem, so as palavras que nos conduzem. Toda a gente forceja por crear uma atmosfera que a arranque vida e morte. O sonho e a dr revestem-se de pedra, a vida consciente grotesca, a outra est assolapada. Remoem hoje, amanh, sempre as mesmas palavras vulgares, para no pronunciarem as palavras definitivas. Toda a gente fala no co, mas quantos passaram no mundo sem ter olhado o co na sua profunda, na sua temerosa realidade? O nome basta-nos para lidar com elle. Nenhum de ns repara no que est por traz de cada sylaba: afundamos as almas em restos, em palavras, em cinza. Construimos scenarios e convencionamos que a vida se passasse segundo certas regras. Isto a conscienciaisto o infinito... Est tudo catalogado. Na realidade jogamos a bisca entre a vida e a morte, baseados em palavras e sons. E, como a existencia monotona, o tempo chega [18] para tudo, o tempo dura seculos. Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada sr, como dentro das casas de granito salitroso, as paixes tecem na escurido e no silencio, teias de escurido e de silencio. Na botica somnolenta ao pae succede o filho sobre o taboleiro de gamo. Quero resistir, afundo-me. Comeo a perceber que o habito que me fez suportar a vida. s vezes acordo com este grito:A morte! a morte!e debalde arredo o estupido aguilho. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulchro vazio. Oh como a vida peza, como este unico minuto com a morte pela eternidade peza! Como a vida esplendida aborrecida e inutil! No se passa nada! no se passa nada e eu sinto aqui ao lado outra vida que me mete medo e que no quero vr. Essa vida talvez seja a minha verdadeira vida. Mas o peor que eu percebo que, se se apodera de mim, no posso mais viver. Agarro-me com desespero ao habito e s palavras. Tu no existes! tu no existes! O que existe isto com que lido todos os dias, as palavras que digo todos os dias, os sres com quem falo todos os dias.E tu rodeias-me, tu reclamas-me e queres viver comigo para todo o sempre. No te posso vr!... Se h momentos em que o caixo que um galego leva s costas me chama realidade, ao espanto, desvio logo o olhar e reentro pressa na vida comesinha. Finjo que sorrio e esqueo. Mas sempre no posso! Anno atraz d'anno no posso! No h mais nada! no h mais do que estas figuras paradas, e as horas verdes que de espao a espao caem como gtas d'agua no fundo d'um subterraneo. Outro anno ainda! outro passo ainda para a morte! Sinto uma dr sem gritos por traz da immobilidade. Cada hora menos uma [19] hora na minha vida. E o tempo foje, o tempo cr de mataborro que ao granito salitroso junta camada denegrida, e s almas sepultadas outra pazada de cinza... H momentos em que as figuras teem tanta vida como os santos imoveis nos seus nichosmas h momentos em que cada um redobra de propores, h momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. H momentos em que cada um grita:Eu no vivi! eu no vivi!H momentos em que deparamos com outra figura maior que nos mete medo. A vida s isto? Por mais que queira no posso desfazer-me de pequenas aces, de pequenos ridiculos, no posso desfazer-me de imbecilidades nem d'este sr esfarrapado que vae de plo a plo. Tenho de aturar ao mesmo tempo esta ida e este gesto ridiculo. Tenho de ser grotesco ao lado da vida e da morte. Mesmo quando estou s o meu riso idiota. E estou s e a noite. Por traz daquella parede fica o co infinito. Para no morrer d'espanto, para poder com isto, para no ficar s e o doido, que inventei a insignificancia, as palavras, a honra e o dever, a consciencia e o inferno. E ainda o que nos vale so as palavras, para termos a que nos agarrar. ento um mundo de formulas a que eu obedeo e tu obedeces? Sem elle no poderiamos existir. Se vissemos o que est por traz no podiamos existir. O nosso mundo no real: vivemos n'um mundo como eu o comprehendo e o explico. No temos outro. Estamos aqui como peixes n'um aquario. E sentindo que h outra vida ao nosso lado, vamos at cva sem dar por [20] ella. E no s esta vida monstruosa e grotesca a unica que podemos viver, como a unica que defendemos com desespero.Pois sim... pois sim...Estamos aqui a representar. Estamos aqui todos ao lado da morte e do espanto a jogar a bisca de tres. Estamos aqui a matar o tempo. Este passo, que unico e um s, damol-o como se fosse uma insignificancia. Mais fundo: no existem seno sons repercutidos. Decerto no passamos de echos. Submeto-me, subjugas-me. J no reparo, j vejo turvo.Jogo!E de repente todo o meu sr sacudido pelo espanto que tacteia minha roda. Raras vezes entramos em contacto, mas sinto-o aqui ao meu ladosem nos chegarmos a entender. Nem quero! nem quero! Se me alheio um momento dou um grito de dr. Escaldo-me. Na verdade o que eu no posso vr, o que eu no quero vr! A villa regula-se por habitos e regras secularesmas h outra coisa enorme para l do scenario de que me rodeio. Para no ter medo criei eu isto, para a no vr criou o Santo o inferno. H outra coisa esfarrapada e dorida.Jogo!Cada vez me sinto mais reles, cada vez as palavras me parecem mais gastas. H outro sr que vae de plo a plo... Esta figura grotesca no a minha figura. O salitre roeu os santos nos seus nichosroeu-os tambem o sonho... Curvado sobre a mesa repito os mesmos gestos inuteis para no desatar aos gritos.Jogo!Isto para fingir que indiferente o que nos rodeia, que estamos habituados ao que nos rodeia, que sorrimos ao que nos rodeia! Est alli a morteest aqui a vidaest aqui o espantoe s a ninharia consegue deitar raizes profundas. [21] 20 de novembro Fecho os olhos. A chuva desaba interminavelmente do co, e na luz turva vejo sempre a villa, com as mesmas figuras de museu sentadas na mesma sala... Insignificancia, insignificancia, insignificancia. Portas chapeadas que rangem nos gonzos como portas de priso, fachadas com os vidros partidos, e uma, duas, tres camadas de p sobrepostas. Lojas terreas d'onde vem um bafo humido que trespassa... Como todas as almas, todas as janelas esto perras, e o tempo vae substituindo uma figura por outra figura, uma pedra por outra pedra. Ponho-as em fila deante de mim, com os seus penantes usados, grotescas e maniacas. Considero. Vejo vir os gestos, as cortezias, as aces do confim dos seculos. Isto nada vulgar e quotidiano. uma aparencia. A villa um simulacro. Melhor: a vida um simulacro. Atraz desta villa h outra villa maior. A lentido, o gesto usado, a meia tinta mesmo em plena luz, toldam-me a viso. Sobre cada sr cahiu uma camada de p. A villa istoe a villa no isto. Que me importa a Adelia, um dia d'inveja, um dia de aquiescencia, um sorriso, baba, mesura atraz de mesura? Outra velha mexe por traz desta velha mesquinha. As lettras assignadas, as lettras protestadas d'este sr absorto, o exagero minusculo, teem outra significao. A realidade a manha, a astucia que cada um pe em jogo. No h velhas com cartas na mo; h orgulho, soberba, inveja paciente. H intuitos, cautela [22] de quem caminha na ponta dos ps. H foras e experiencia, avareza e astucia. E mais fundo outro, outro sobterraneo... Todas as palavras que se empregam teem, alm da significao banal, uma significao que cada um peza e calcula,e outra significao superior. H palavras que requerem uma pausa e silencio, e h palavras que preciso afundar logo n'outras palavras. H pelo menos dois sres n'este homem que toda a gente conhece, pautado, regrado, methodico. Elle e o doido morto por fazer esgares. Elle e o doido que s consegue comprimir fora de pontualidade. Esta velha no a velha com quem lidamos outra. Tem tido um trabalho para fazer mal, nunca conseguiu fazel-o. Se se arrisca, h-de contar comsigo mesma para se contrariar. uma discusso que no acaba, com a bocca amarga, arrependimentoe por fim no realisa uma catastrophe authentica, que a engrandea. Curvada sobre o lar remexe sempre as mesmas cinzas frias... Todos se defendem. Por isso existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa. O homem s vive de detalhes e as manias teem uma fora enorme: so ellas que nos sustentam. Reparo melhor na vida secreta e na vida subterranea. Comprehendo como dificil viver todos os dias e todas as horas, como atravez de tudo foroso seguir um fio invisivele ser reles e sorrir. Gasta-me uma fora superior, e com todas as chagas e todos os vicios, com a vida mesquinha e a vida quotidiana, o nada, o penante usado, o fel e o vinagre, tenho de arcar com uma coisa immensa de que me separa apenas um tabique. Tudo o que fao um arremedo. Est alli outra [23] coisa quando falo, quando me calo, quando me rio. E falo mais alto porque a ouo mexer... Todos suportam o drama de todos os dias, o cinzento de todos os dias, as aflices e a usura que tornam as figuras ridiculas e coadas. Todos suportam os tratos que envelhecem e preparam para a cva, os pequenos interesses, a inveja, a ambio, a dr phisica. Todos os dias a Hermengarda amarga os brazes da Bibliotheca, a Bisborria todos os dias scisma na sua respeitabilidade, e aturam o azedo que pouco e pouco se deposita nas almase com isto uma coisa desconforme, que se levanta e deita comnosco, no se tira do nosso lado, em quem ninguem fala e com quem temos por fora de cohabitar; deante de quem foroso ser vulgar e dissimulado, fazendo que a no vemos e com ella cabeceira da cama... Atraz da insignificancia andam os cos, os mundos, os vagalhes doirados. Anda o desespero. Anda o instincto feroz. Atraz disto andam as enxurradas de soes e de pedras, e os mortos mais vivos do que quando estavam vivos. Atraz do tabique e das palavras anda a Vida e a Morte e outras figuras tremendas. Atraz das palavras com que te iludes, de que te sustentas, das palavras magicas, sinto uma coisa descabelada e phrenetica, o espanto, a mixordia, a dr, as foras monstruosas e cegas. Em certas ocasies, se as palavras e a insignificancia desaparecessem da vida, s ficava de p o espanto. S a insignificancia nos permite viver. Sem ella j o doido que em ns prega, tinha tomado [24] conta do mundo. A insignificancia comprime uma fora desabalada. Para no vr, para no ouvir, que nos curvamos sobre a mesa de jogo. Para te no ouvires a ti mesmo, para no vres o que te gasta a todos os minutos e a todas as horas, usura immensa que no sentes e que te vae levar para o escantilho sofrego, que te vae mergulhar no silencio profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inuteis. Todos os dias acordamos com mais fl. E todos os dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, no vendo, fingindo que no existe, o espanto que est ao nosso lado, e o espanto peor que trazemos comnosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto no tem importancia nenhuma. Com isto enchemos a vida at chegar a morte. Esta mesa de jogo a nossa existencia vulgar, a vida de todos os dias, com o galope da outra vida ao lado. No se passa nada! No se passa nada! No vero o calor sufoca, d'inverno a mesma nuvem impregna o granito, e apega-se, amollece, dissolve pilares das janellas, casebres e a oliveira da praa, s tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um circulo de montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragediae as montanhas no desistem. De quando em quando, na solido que noite redobra, cahem do alto da S as badaladas, uma a uma, pausa a pausa. O som tem um peso desconforme. Estamos aqui todos espera da morte! estamos aqui todos espera da morte! O SONHO 6 de dezembro Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos enterrados em convenes at ao pescoo: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Adhere. H dias em que no distingo estes sres da minha propria alma; h dias em que atravez das mascaras vejo outras phisionomias, e, sob a impassibilidade, dr; h dias em que o co e o inferno esperam e desesperam. Presinto uma vida oculta, a questo fazel-a vir supurao. Esta manh de chuva um minuto no rodar infinito dos seculos, e os sres que passam meras sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me tambem no viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida no isto. A arvore cumpre, o bicho cumpre. S eu me afundo soterrado em cinza. Terei por fora de me habituar aquiescencia e regra? Crio cama e todos os dias sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto. necessario abalar os tumulos e desenterrar os mortos. [26] o Gabiru que se pe a falar sem tom nem som. Um homem absurdo. Olhos magneticos de sapo. uma parte do meu sr que abomino, a unica parte do meu sr que me interessa. s vezes deita-me tinta nos nervos. Fala quando menos o espero. Chamo-o, no comparece. Se quero ser pratico, gesticula dentro do casaco arripiado:A alma! a alma!Singular philosopho! capaz de desejar a morte para vr o que h l dentro; capaz de achar vulgares at as coisas eternas. Ao lado da vida constroe outra vida. Sonha, e os seus sonhos so sempre irrealisaveis, transformam-se-lhe nas mos em barro informe. Toda a gente se rij sonha outra vez... Para elle a vida consiste, encolhido e transido, em embeber-se em sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se em sonho. Mezes inteiros ninguem lhe arranca palavra, dias inteiros ouo-o monologar no fundo de mim proprio. Ignora todas as realidades praticas. Na arvore v a alma da arvore, na pedra a alma da pedra. Deforma tudo. Pe a mo e molha. Destinge sonho... A almadiz elleao contrario do que tu supes, a alma exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a materia. Em certos homens a alma chega a ser visivel, a athmosphera que os rodeia toma cr. H sres cuja alma uma continua exhalao: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da caudaimmensa, dorida, phrenetica. H-os cuja alma d'uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. D'ahi tambem simpathias e antipathias subitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da materia comunicar. O amor no seno a impregnao d'esses fluidos, formando uma s alma, como o odio a repulso d'essa nevoa sensivel. [27] Assim que o homem faz parte da estrella e a estrella de Deus. Nos vegetaes, nas arvores, a alma interior, pequenina emoo, pequenina alma ingenua e humilde, que se exteriorisa em ternura a cada primavera: tocada pelo grande fluido esparso, onde andam as nossas lagrimas, vem tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos mineraes, na pedra concentrada e recalcada, que dr inconsciente, que esforo cego e mudo por no poder abalar as paredes e comunicar com a alma do universo! A pedra espera ainda dar flr. Para elle estas coisas ethereas so visiveis. V to exactamente como eu te vejo a ti a paixo, o odio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados d'oiro, de piedade e de genio. H noites em que no resisto: fecho-me com elle a sete chaves. Tem-me estragado tudo. o doido que em ns prga e nos deixa aturdidos. s vezes consigo afastal-o, mas succede que fico sempre com pena: se o ouvisse talvez fosse mais feliz e mais desgraado... Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando o no tenho ao p de mim. Deita-me a perder se me apanha desprevenido. Quasi sempre elle quem manda em minha casa, e, mesmo quando falo como toda a gente fala, e quando rio como toda a gente ri, s a elle o ouo no mundo. Diz-me coisas que nunca ouvi, isola-me n'um valle apertado e scismatico, longe de toda a terra, arrasta-me, ou desespera-me. Desaparece como um co vadio, e quando volta, com lama de todos os caminhos, folhas de todas as florestas, reflexos de todos os enxurros, vem exhausto, mudo e feliz. Vem feliz! elle que me prga:Toda a agitao inutil. No tenhas medo da desgraa!E eu tenho medo da desgraa. fora de habito [28] cheguei a mantel-o no seu logar, mas nunca o pude suprimir, e quanto mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru, que me estragou a vida toda. Mora n'um velho pardieiro encostado muralha, abafado d'um lado pela muralha da villa, que noite redobra de porpores. O granito enegreceu, poliu-o a chuva, e a escadaria de pedra d calafrios a quem entra. Essa alma, essa alma disforme, que vae de mundo a mundo, e que em cada sr realiza uma primavera que tudo. O resto insignificancia. ella que nos devora e faz da morte a vida e da vida a morte... D'um lado a muralha de dentes arreganhados para o co, do outro o sordido pardieiro, no alto a noite de luar como uma camelia gelada. Dentro d'isto sonho. Ponho-me a olhar para elleponho-me a olhar para mim. Passou a vida n'aquella inutilidade, de que sae a revr sonho, e com os ctos partidos a esvoaar na noite dorida. Primeiro afundou-se em experiencias do laboratorio, procura da pedra philosophal.Ridiculo. Depois na aplicao da electricidade aos vegetaes, que se consomem de febre, que se desentranham em flr, sem produzirem fructo.Grotesco. Agora ninguem o arranca a infindaveis monologos cahoticos:A morte! a morte! a morte! Incongruencia, obscuridade e dr tambem; a dr de quem vem da irrealidade, encolhido e transido; a figura estranha de quem se debate com o sonho e sae da lucta esfarrapado e doirado. Se o tiram do sonho titubia e no sabe onde pe os ps. Tem as azas partidas. Comprehende ento a sua inutilidade e desespera-se [29] at reentrar na nuvem que o envolve. Puxa a si o misterio, e, entre as arvores e os fios eletricos que correm todo o quintal e ligam todas as arvores, ouo a sua voz magnetica, que impregna de sonho o luar todo branco: Isto um fluido dr, falta-me condensal-o. uma nuvem que envolve tudo, que vem do turbilho da Via Lactea, arrasta tudo comsigo, e ascende em espiral at Deus. No, a sensibilidade no individual, universal. Basta ferir a sensibilidade, que vae dos nossos nervos at Via Lactea, para transformar as noes do tempo, do espao, da vida e da mortebasta deitar dentro d'um tanque uma gota de vermelho para tingir toda a agua. Deito-lhe sonho dentro... 7 de dezembro A villa tumular e encardida, mas oculta dentro dos seus muros um sonho desconforme. Talvez desconexo, mas desconforme. O sonho d'elle: a propria casa de granito rev sonho. O Gabiru mistura, revolve, extrahe sonho do sonho. Debalde o que mesquinho lhe mostra os dentes: o Gabiru no ouve, no v, no sente. O sonho isolou-o da propria mulher transida de frio, no casaro que deu costa como uma nau do passado, com o cavername roido pelo mar das trevas. um sr quasi ethereo. Nem sei dizer se existiu, se a criei; sei que se sumiu n'um spro cada vez mais ep ......Buy Now (To Read More)

Product details

Ebook Number: 39618
Author: Brandão, Raul
Release Date: May 5, 2012
Format: eBook
Language: Portuguese

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