Obras posthumas

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Obras posthumas Title: Obras posthumas Author: Nicolau Tolentino Release Date: July 3, 2011 [EBook #36608] Language: Portuguese...
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Title: Obras posthumas Author: Nicolau Tolentino Release Date: July 3, 2011 [EBook #36608] Language: Portuguese Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) OBRAS POSTHUMAS DE NICOLO TOLENTINO DE ALMEIDA. LISBOA, 1828. NA TYPOGRAFIA ROLLANDIANA. Com Licena da Meza do Desembargo do Pao. A Sua Alteza. SONETO I. Tornai, tornai, Senhor, ao Tejo undoso, Vinde honrar-lhe outra vez a clara enchente, E deixai que ajoelhe entre a mais gente Hum protegido humilde, e respeitoso. No leva a vossos ps rogo teimoso De importuno cansado pertendente; Vem beijar-vos a mo humildemente, A mo augusta que o far ditoso. Pois foi por Vs benignamente ouvido, No vai fazer em pertenes estudo, Vai s mostrar-vos que he agradecido. Ante Vs ajoelha humilde, e mudo: Mostrai-lhe que inda he Vosso protegido; Que se isto lhe ficou, ficou-lhe tudo. [4] A Sua Alteza. SONETO II. Qual naufrago, Senhor, que foi alado Por mo piedosa d'entre as ondas frias, Tal eu de antigas duras agonias Por vossas Reaes mos fui resgatado: Pois vencestes as teimas do meu fado, E j vejo raiar dourados dias, Deixai que possa em minhas poesias O vosso Augusto Nome ser cantado. No he digna de vs minha escriptura, Nem harmonia, nem estilo a adoa; Mas valha-lhe, Senhor, vontade pura. Principe excelso, consent que eu possa Fazer inda maior minha ventura, Contando ao mundo que foi obra Vossa. [5] Sahindo Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor D. Diogo de Noronha. SONETO III. Nem sempre em verdes annos a imprudencia Produz irregular procedimento: Nem sempre encontra o humano entendimento S perto do sepulcro a s prudencia. Em Vs no esperou a Providencia Que longas cans vos dm merecimento: Em Vs mostrou que estudos, e talento Valem mais do que a larga experiencia. Os eruditos velhos Conselheiros, Depois que o vosso voto alli for dado, Sero de Vs eternos pregoeiros: E diro que deveis ser escutado Onde os Ministros vossos companheiros No sejo da Fazenda, mas do Estado. [6] Aos leques mui pequenos, chamados Marotinhos. SONETO IV.[1] Fofo colcho, as plumas bem erguidas, E sobre os hombros nas jucundas frentes De enrolado cabello anneis pendentes, Longos chores, bellezas estendidas, Era esta das matronas presumidas A moda, que trazio bem contentes; Rio-se dellas as modestas gentes Vendo pequenas poupas esquecidas. Nisto a gentil Madama aperaltada, Grande auctora de trastes exquisitos, Nova moda lhe inventa abandalhada. Reprova-lhe aureos leques com mil ditos. Eis seno quando (oh moda endiabrada!) Abano-se com azas de mosquitos. [7] O cruel disfarce. SONETO V. Sem murmurar padecerei callado Cumprindo o teu preceito violento: Faltava a envenenar o meu tormento Dever ser por mim mesmo disfarado. De trazer o semblante socegado Farei o inculpavel fingimento: Nos olhos mostrarei contentamento, Tendo hum punhal no corao cravado. Este peito onde nunca engano viste, Que no sabe a vil arte de affectar-se, Onde a verdade, e a intacta f existe, Martyr do amor, e do infiel disfarce, Nas tuas adoraveis mos desiste T dos tristes direitos de queixar-se! [8] Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de Lima, Secretario de Estado. SONETO VI. A longa cabelleira branquejando, Encostado no brao de hum Tenente, Cercado de infeliz chorosa gente Hia passando o velho venerando.[2] Geraes repostas para o lado dando: Sim Senhor; Bem me lembra; Brevemente; Na praguejada mo omnipotente Nunca lidos papeis hia aceitando. Mas eu que j esperava altas mudanas, Melhor tempo aguardei, e na algibeira Metti a Petio, e as esperanas. Chegou, Senhor Visconde, a viradeira: Soltai-me a mim tambem destas crianas, Onde tenho o meu Forte da Junqueira. [9] Fazendo Annos a Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Angeja. SONETO VII. Senhora, ha muito tempo pertendia Ser do vosso favor patrocinado: Mil vezes vos quiz dar este recado; Porm sempre o respeito me impedia. Chegou em fim o venturoso dia A fazer beneficios destinado: Vou neste privilegio confiado; Que a no ser isso no me atreveria: Vou pedir que descendo da Cadeira, Onde explico os crueis Quintilianos, Me ensineis a tomar melhor carreira. Que em mim ponhais os olhos soberanos, E que me chegue em fim a viradeira[3] No faustissimo dia destes annos. [10] Aos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Avintes. SONETO VIII. A varonil idade florecente Vos tece, illustre Here, annos dourados Para serem Patria consagrados; Pois sois de Almeidas claro descendente. Sobre as terras, e mares do Oriente Inda vejo os trofeos alevantados: Vejo beber mil corpos aboiados Do turvo Gange a fervida corrente. No difficil caminho d'honra, e gloria Por ferro, e fogo a seus bons Reis servindo, Vos deixo por doutrina a sua historia. Foro diante o duro passo abrindo: Entrai, Senhor, no Templo da Memoria, Os bons Avs, e o illustre Pai seguindo. [11] Estando nas Caldas. SONETO IX. Por mais que vos alongue olhos cansados, Olhos ha tanto tempo descontentes, No vedes mais que pallidos doentes Por mos estranhas n'agoa sustentados. Quantas vezes ficastes magoados Por ver ir entre as fervidas correntes Envolvidas mil lagrimas ardentes Do que em vo quer alar braos mirrados! Vistas so estas de bem pouco gosto; Porm bem pagos ficareis hum dia Quando virdes de Arminda o lindo rosto. E o pranto, que atgora vos cahia De lastima, d'auzencia, e de desgosto, Ella o far correr; mas de alegria. [12] A huns Annos. SONETO X. Foi este o dia em que a teus ps baixro Venus, e as lindas Graas innocentes, E em torno do aureo bero reverentes Ao som de alegres hymnos te embalro. Aos teus olhos gents communicro Cruel poder de conquistar as gentes: Mil suspiros, mil lagrimas ardentes A muitos coraes prognosticro. Dro-te huma alma heroica, hum nobre peito: Dro-te discrio, e formosura, Dons a que o mundo est mui pouco afeito. Mas, oh humana sorte, triste, escura! Para na terra nada haver perfeito, Dro-te hum corao de pedra dura. [13] Ao disfarce das Mulheres. SONETO XI. Vens debalde, oh bellissima perjura, C'o lindo rosto em lagrimas banhado: J fui por ti mil vezes enganado, E sempre me affectaste essa ternura. Esse alvo peito, que he de neve pura, Mas de ao, e fino bronze temperado, Encobre hum corao refalseado, Hum corao de viva rocha dura. Em vo trabalhas, se enganar-me queres, Vejo correr com animo sereno Esse pranto em que fundas teus poderes: Mal inventado ardil: ardil pequeno: Tu mesma me ensinaste, que as mulheres Misturo com as lagrimas veneno. [14] A huma Camponeza. SONETO XII. No moro em palacios estucados Almas singelas, almas extremosas: Nutrem da Corte as damas enganosas Em tenros peitos coraes dobrados. Venho por longos mares conquistados As Indianas sedas preciosas: Cubro-lhe as carnes alvas, e mimosas Ricos vestidos em Paris bordados. So isto effeitos da arte, e da ventura: Estimo mais que toda a v grandeza Hum limpo corao, huma alma pura. No na Corte; das serras na aspereza Fui achar innocencia, e formosura, Sagrados dons da simples Natureza. [15] A huma Dama interesseira. SONETO XIII. Podio ser felices meus amores Quando por ouro o amor se no vendia: J de palavras Nize desconfia, S cr ou em dinheiro, ou em penhores. Vio-me assaltado d'ancias, e temores Quando na porta irada mo batia: Por costume infeliz ella sabia Que era algum dos cansados acredores. Foro-se os dias bemaventurados, Em que s almas grandes, peitos nobres, Ero do Deus de amor agazalhados: Negro destino hoje preside aos pobres: Poz termo a bella Nize aos seus agrados, Vendo esta bola condemnada a cobres. [16] Ao faustissimo dia da Inaugurao da Estatua Equestre d'El-Rey Fidelissimo o Senhor D. Jos I. SONETO XIV. Em quanto o Reino cheio de ternura Ao grande Bemfeitor te ha consagrado, E respeita aos teus ps ajoelhado O Rey Augusto de quem s figura: Em quanto os que me vencem em ventura Abrindo o antigo cofre chapeado, Mando de prata, e d'ouro recamado Entretecer a rica vestidura: Eu que no tenho desta louania, De outra sem pejo sahirei composto, Que no cede mais fina pedraria. So ternissimas lagrimas de gosto: Nem infama o triunfo deste dia Quem pe por gala o corao no rosto. [17] Descripo de Badajoz. SONETO XV. Passei o Rio, que tornou atraz, Se acaso he certo o que Cames nos diz, Em cuja ponte hum bando de Aguazis Registro tudo quanto a gente traz. Segue-se hum largo, em frente delle jaz Longa fileira de baiucas vs: Cigarro acezo, fumo no nariz, He como a companhia alli se faz. A cidade por dentro he fraca rez, As moas pem mantilhas, e ando ss, Tem boa cara; mas no tem bons ps. Isto, coifas de prata, e de retroz, E a cada canto hum srdido Marquez, Foi tudo quanto vi em Badajoz. [18] Serenissima Princeza entrando no banho. SONETO XVI. Nynfas do Tjo j por mim cantadas, Nossa Augusta Princeza esta presente; Ped-lhe, que honre a placida corrente, E as agoas ficar mais prateadas. Diante de seus ps ajoelhadas Em justo acatamento reverente, Serenem vossas mos a clara enchente, E as frias agoas corro temperadas. Sobre as ondas as frentes levantando, Ao tempo que as douradas tranas bellas Brandamente lhe fordes enxugando, Dizei-lhe, que sustento Irmas donzellas, Outras viuvas; e ide-lhe lembrando, Que o bem que me fizer he feito a ellas. [19] Levantando-se o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para a Aula. SONETO XVII. No tomando em desprezo o escuro estado Em que me poz Fortuna, e Natureza, Olhastes sem horror minha baixeza, E fizestes sentar-me ao vosso lado. Ento de ingrata obrigao chamado Deixei fora a companhia, e a meza, E inda cheio de ideias de grandeza Vim dar por thema hum Verbo conjugado. No sei com dous oppostos conformar-me; Soffrem-me os Grandes, sou taful, e moo, No sei a Senhor Mestre costumar-me. Taes extremos, Senhor, unir no posso; De dous genios no sou: mandai fechar-me Ou a minha Aula, ou o Palacio vosso. [20] Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva chegando o A. quinta das Lapas. SONETO XVIII. Hum triste fatigado caminhante Chega a Vs, Illustrissimo Penalva: Co'a mo na espada a augusta Casa salva Segundo as leis de cavalleiro andante. Sobre ronceiro fraco Rocinante, Que pesca a dente encontradia malva Por duras rochas, por areia calva Cem vezes pronta morte vio diante. Cuidando achar aqui melhores fados, Aos ps de outro Rocim, por novo caso, Quasi que vio seus dias acabados. Quiz correr junto a Vs sobre o Pegaso: Cahio, e por sinal colheis regados Do sangue seu os louros do Parnaso. [21] Descripo de hum Peralta amaltezado. SONETO XVIX.[4] Hum vulto cuja frma desconsola Pelo muito que mostra o pouco sizo, E que pela pobreza do juizo Mil trastes exquisitos desenrola: Chapeo que bem carrega hum mariola, E que ainda aos sizudos causa rizo, Cazaquinha cortada de improvizo, Fivela que lhe vem de sola a sola: Espantalho que em praa nunca falta Sem ter occupao nem m, nem boa, Que apenas moa v logo lhe salta: Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa, Breve quadro de hum misero Peralta, Que affecta de Maltez c em Lisboa. [22] Aos Annos do Serenissimo Principe Nosso Senhor. SONETO XX. Foi este, Alto Senhor, o santo dia, O Ceo o concedeo, o Ceo que he justo Afflicto o Povo, posto em dr, e em susto Com lagrimas ardentes lho pedia. O fertil Ganges nas entranhas cria Offertas para Vs, Principe Augusto, E ajoelhado na praia o Povo adusto Rico thesouro a vossos ps envia. Ao Reino tecereis dias dourados, Sem precizar que os Fastos Lusitanos Vos contem as aces dos Reis passados. Ponde os olhos nos vivos Soberanos, Estudai-lhe as doutrinas, e os cuidados, E a patria acclamar os vossos Annos. [23] A hum Leigo Arrabido vesgo, despedido da Meza do S. C. P. Silva, por tomar a melhor pera da Meza. He o de que se trata nas Decimas, Tom. II. pag. 178, Ferio sacrilega espada. SONETO XXI. O vesgo monstro que co'a gente ralha E de manha a todos atravessa, A cuja hirsuta sordida cabea Nunca chegou juizo, nem navalha; Que os gazeos olhos pela meza espalha Por ver se ha mais comer que tire, ou pea, Entrando nelle com tal fome, e pressa Qual faminto frizo em branda palha; Por crimes de alta gula, e pouco sizo, De meza bem servida, mas severa, Foi n'hum dia lanado de improviso. Hoje chorando o seu perdo espera: Perdro dous glotes o Paraiso, O antigo por maa, este por pera. [24] Aos toucados altos. SONETO XXII.[5] Foi ao Manique hum homem accusado Por contrabandos ter; elle sciente Chama a quadrilha, corre diligente, Entra, busca, e no acha o Malsinado. Acha a mulher, que tinha por toucado A torre de Belem: ella que o sente, Banhada em pranto, desmaiada a frente, Prostra por terra o corpo delicado. C'o bolo se esbandalha a mata espessa, Sahem della esguies, cassas lavradas, E de belbute trinta e huma pea, Fivelas, espadins, rendas bordadas: At tinha escondido na cabea O marido, e tres arcas encouradas. [25] Mettendo a ridiculo humas contradanas. SONETO XXIII. N'huma tremula sala mal armada Com placas velhas, e papel pintado; Clamava j o povo alvoroado Que fosse a Favorita comeada. Guincha em venal rabeca desgrudada De velho musico o arco estuporado: Cadeia, grita hum muito suado, Olhem que vai a contradana errada. Nervoso chispo, saborosas frutas He fazenda que alli nunca governa: Aquellas bocas ando sempre enxutas. Nunca mais alli trno a fazer perna: Quanto mais val o ir com quatro trutas Fazer huma funo n'huma taberna. [26] Por occasio de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem offendia. SONETO XXIV. Atia, moo, a moribunda chama Dessa faminta, sordida canda, E encostado parede cabeca, Posta de guarda ao p da minha cama. Se o sono, que em meus olhos se derrama, E os languidos sentidos me encada, Tentar com sonhos esta pobre ida, Em altos gritos por meu nome chama: Assenta-me na cara essas mos frias: Pois ves o fructo, que sonhando tiro, Corta em raiz traidores fantasias. Contra os sonhos desde hoje me conspiro: Se ao primeiro me dizem heresias, Em sonhando outros prego-me hum tiro! [27] moda dos chapeos maiores da marca. SONETO XXV. Amigos, e Senhor meu, de Frana, ou Malta Hum chapeo mande vir a toda a pressa; A cpa que me ajuste na cabea; Mas as abas na frma a mais peralta. A detraz que me fique muito alta, A prezilha, e boto pequena pea: Estimarei que disto no se esquea; Que a demora me faz bastante falta. Gostei muito do invento, he bem traado, Porque vi no Loreto hum certo dia Muito povo a correr para o Chiado, Para ver hum Senhor, quem tal diria: C'hum chapeo de tal frma desmarcado Que nem a gente a p passar podia. [28] s fivelas chamadas a la Chartre. SONETO XXVI. Oh quantos Mexicanos pataces, Mareados talheres j sem par, tonta Av o neto vai furtar De mofentos decrepitos caixes: Fundidos em quadrados fiveles Para Chartres o neto passear, Traz nos ps a baixela singular Que podia servir em correes. Capito Vento-Sul, rico Hollandez, Que de prata subtil pequenos s Servem s de fivelas nos teus ps, Vem admirar-te, vendo que entre ns Traz o pobre peralta Portuguez Por fivelas molduras de trems. [29] A huma Velha presumida. SONETO XXVII. Debalde sobre a face encarquilhada Pendendo louros bugres emprestados, Ds inda ao louco amor teus vos cuidados, Em carmins enganosos confiada. Postia formosura, em vo comprada, No torna atraz os annos apressados: Nem alvos dentes de marfim talhados, Torno em nova a tremula queixada. De ti no mesmo tempo que do Gama Cantou mil bens a Deosa Trombeteira, A que os baixos Poetas chamo Fama: Porm sempre ficaste em boa esteira; Porque, se j no prestas para dama, Inda serves mui bem como terceira. [30] Aos Annos de huma formosa Dama. SONETO XXVIII. Deixai, Pastores, na montanha os gados, Vinde ao sitio melhor desta campina Beijar a mo bella, e peregrina Deidade tutelar dos nossos prados: Vinde offertar-lhe aos annos celebrados O cravo, a roza, a angelica, a bonina; E ao mais suave som da flauta fina Decantar seus illustres predicados. Mas j a cerco pastores, e pastoras; Huma lhe beija a mo, outra o vestido; Elles a coroo de vistosas flores, E em doces vozes todo o rancho unido Canta que ella he a Deosa dos Amores; Pois tem no rosto as settas de Cupido. [31] A Sua Alteza. SONETO XXIX. Nesta cansada triste poesia Vedes, Senhor, hum novo pertendente, Que aborrece o que estima toda a gente, Que he ter no mundo cargos, e valia. Sobre alto throno ha annos que regia De docil povo turba obediente: Mas quer antes sentar-se humildemente N'hum banco da Real Secretaria; Qual modesto Capucho reverendo, Que em fim de Guardiania triennal Passa a Porteiro as chaves recebendo. Em mim conheo vocao igual: E co'a mesma humildade hoje pertendo Passar de Mestre a ser Official. [32] A hum Padre Guardio. SONETO XXX. Meu Padre Guardio, que exemplarmente Regeis essa Capucha Sociedade, Que munida do vo da Santidade Passa como no passa a mais da gente: Vs que fora de brao omnipotente Fazeis tremer do inferno a potestade, E aos exorcismos s de hum vosso Frade Se explica o Demo em Portuguez corrente: Logo que dessa estola o forte escudo Buscar esbelta Nynfa, que atacada Seja d'algum Demonio surdo, ou mudo, Mandai dos Mrques conte a trapalhada:[6] Pois s elle, que foi o que urdio tudo, Sabe quem commetteo a velhacada. [33] Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos. SONETO XXXI. No gro Theatro vejo sempre enchentes: As cans annosas, os cabellos louros, Illustradas naes, barbaros Mouros, Todos da tua voz fico pendentes. Que importa que no deixem descendentes Teus ex-virs deshabitados couros; Que importa que tu roubes aos vindouros Se enriqueces, se encantas os presentes? No he traio ao sexo feminino; He s razo quem te elogia, e preza, Comico Mestre, Musico divino. Oh nao de harmonia, e de crueza! O teu ferro nem sempre he assassino: No insultou, honrou a natureza. [34] Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia. SONETO XXXII. Eu vi a Marcia bella, vi Cupido Com arco, settas, e cruel aljava, Com impeto sahir de donde estava, E voar para mim enfurecido. Fug; bradei: porm no fui ouvido; E o tyranno Rapaz que me buscava, Com huma, e outra setta me atirava, At de todo me deixar rendido. Atou-me as mos com asperas cadeias, Sem o mover o sangue que corria Do roto corao, das rotas veias. Antes, com frio rizo me dizia: E no sabias tu, que Amor receias, Que nos olhos de Marcia Amor vivia? [35] Sobre a Ingratido de huma Dama. SONETO XXXIII. Corao, de que gemes, de que choras? Que parece tens odio propria vida! Se perdeste teu bem, foi mo perdida, Com te pr a morrer nada melhoras. Eu bem sei que a belleza a quem adoras, Foi-te ingrata, e cruel, foi fementida; Mas que esperavas tu, se he lei sabida O mudar-se a Mulher todas as horas. Socega, Corao, deixa a tristeza; Quem te mandou querer com f to pura, Quem te mandou mostrar tanta firmeza! Erraste, tem paciencia, em fim procura No fazer por Mulher jmais fineza, Achars mais amor, maior ventura. [36] CANTIGAS Feitas nas Caldas com o Estribilho: Negras tristezas, Adeos, adeos. No ha nas Caldas Melancolia, Do alegria Os ares seus. Negras tristezas, Adeos, adeos. Sara-me a terra, E no as agoas: No curo magoas Os banhos seus. Negras &c. [37] Huns lindos olhos, Que o dia aclro, Afugentro Os males meus. Negras &c. Brandos sorrizos A furto dados Fazem dourados Os dias meus. Negras &c. Se entra nos banhos Marilia bella, Entra com ella O cego Deos. Negras &c. Alli tempra Nas agoas puras As pontas duras Dos ferros seus. Negras &c. [38] Enxuga as tranas Da Nynfa loura, E nellas doura Os farpes seus. Negras &c. Caldas ditosas Teu nome cresa, Ala a cabea At os Ceos. Negras &c. O pobre Anfriso, Que estas caladas Deixou regadas Dos olhos seus, Negras &c. Hoje em triunfo De seus pezares Levanta altares De Gnido ao Deos. Negras &c. [39] ENDECHAS. No sacro Templo Que Amor habita Minha alma afflicta Fui immolar. Na ruiva flamma Que silva ardendo A mo detendo Jurei-te amar. Fumoso sangue, Mal findo o voto, Do peito roto Vi gotejar. [40] D'alma opprimida A insana pena Causou-lhe Elena Que soube amar. Nos fidos peitos O morto lume Negro Ciume Hia ateiar. Vulcano fro Ante Mavorte O rival forte No pde olhar. Dos desprezados, Que soffrem tanto, O rouco pranto Feria o ar. [41] Aqui jaz Delio Terno, e vencido. Sem de Cupido Premio alcanar: Que Dafne esquiva, Com triste agouro, Em verde louro Vio transformar. Pan segue a Nynfa, Que tanto adora; Seu fado chora Vendo-a mudar. De tenras cannas Amor lhe manda, Que a frauta branda V fabricar. [42] Cercada Dido De angustias fas, Ah falso Eneas! Se ouve bradar. Seus lindos olhos Frouxos erravo; Em vo buscavo O vago mar. Subts enredos De acerbo dano Bifronte engano Eu vi tramar. Por Thisbe bella, Que busca errante, Pyramo amante Vai acabar. [43] Conhece a amada O infeliz erro, Ousa impio ferro Em si cravar. Serve-lhe a terra De duro leito, V-se-lhe o peito Inda arquejar: As pardas sombras; Que Amor mistura, Na Estyge escura Vo aportar: Desenrugando A crespa fronte, Ldo Acheronte As foi buscar. [44] E eu combatido De mil pezares Vou pelos ares A suspirar. Sei ser-te amante Sem premios vivo, Este o motivo Do meu penar. Vs mil exemplos, E jmais pensas Que pde offensas Amor vingar. Ah! s piedosa: As cruas penas Torne serenas Teu brando olhar. [45] Em dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida. Por mais que esse sangue honrado Vos inspire os pondonores De merecer os louvores E no querer ser louvado, Este dia he consagrado A elogios soberanos: Sem vir enfeitar enganos Com mo venal, e fingida, Em contar a minha vida Louvarei os vossos annos. Tecro-me em baixo estado A Fortuna, e a Natureza: Entre os braos da Pobreza Fui desde o bero lanado. Pelas vossas mos alado Quebrei da desgraa o fio: [46] Se da crua fome, e frio Livro o Pai, livro os Irmos, He obra das vossas mos, E faz o vosso elogio.[7] [47] MOTE. Olhos de Lize, olhos bellos, Olhos para mim fataes, Que hum vosso girar smente Me faz temer mil rivaes. GLOZA. Da alva Lize os brancos dentes, O rosto affavel, e brando, A boca, donde em fallando Ficamos todos pendentes, Nos lizos hombros patentes Soltos os longos cabellos No so causa dos desvellos, Nem das ancias em que vivo: Vs sois, vs sois o motivo, Olhos de Lize, olhos bellos. [48] Vs sois os meus vencedores, E sois gloria do vencido: De vs me atira Cupido Mil farpados passadores. Se vence o Deus dos Amores, Vs as armas lhe emprestais. Que ternos saudosos ais, Que pranto em vo derramado, Me no tendes vs custado, Olhos para mim fataes! Se o rosto ao Ceo levantado Alais as pestanas pretas, Logo de brilhantes setas Vejo todo o ar cruzado. Cupido, que tem jurado Crua guerra humana gente, Das nuas costas pendente Dura aljava, e passadores, Far conquistas menores Que hum vosso girar smente. [49] Quando desses claros lumes Sahem as chammas brilhantes; De mil rendidos amantes Ouo saudosos queixumes. No chameis loucos ciumes, Lize, os que em mim causaes: Do poder de huns olhos taes Quem ha que livrar-se possa, Se a menor perfeio vossa Me faz temer mil rivaes? [50] MOTE. Tu teimas em desprezar-me, Eu teimo em te idolatrar, Juntarei teima com teima, Teimando te hei de abrandar. GLOZA. De ser comigo piedosa No ds, Marilia, esperanas: Inda, cruel, no te cansas De ser esquiva, e teimosa! Que importa, Ninfa formosa, Vir neste pgo arriscar-me, De mergulho ao mar lanar-me, E os livres peixes colher-te; Se quanto eu teimo em querer-te, Tu teimas em desprezar-me? [51] C'os olhos ao Ceo erguidos, Ou postos nos longos mares, Por ti encho os vagos ares De mil saudosos gemidos: Nos rochedos desabridos, Que em vo bate o rouco mar, Devorando o meu pezar, J que de ouvi-lo te cansas, Sem premio, sem esperanas Eu teimo em te idolatrar. Teimando, se mal no penso, Hei de abrandar teus rigores; Porque assim como em amores, Tambem em teimas te veno. Juro pelo Sol intenso, Que a prumo estas rochas queima, Que mais do que eu ninguem teima. So as causas desiguais: Mas por vr quem teima mais, Juntarei teima com teima. [52] Se alva fonte murmurando Gasta em torno os duros seixos, E vai dos annosos freixos As raizes escarnando: Se duras rochas quebrando Vai c'o tempo o bravo mar: Se bronzes pde cortar Mordente lima teimosa: Tambem eu, Ninfa formosa, Teimando te hei de abrandar. [53] MOTE. No sei que quer a desgraa, Que atraz de mim corre tanto: Hei de parar, e mostrar-lhe Que de ve-la no me espanto. GLOZA. No sei que outro mal profundo Inda a desgraa me guarda, Se me tirou em Anarda O que tem de bom o mundo! Foi este golpe to fundo, Que outro no tem que me faa: Se em levar-me o gesto, e a graa De huns olhos, por quem vivia, Me fez quanto mal podia, No sei que quer a desgraa! [54] Debalde outros gostos pintas, Amor, para cativar-me: J no tornas a enganar-me, Por mais, e mais que me mintas. Inda tens as settas tintas, Inda enxugo inutil pranto: Ao teu venenoso encanto Novas victimas procura; E d-lhe dessa ventura, Que atraz de mim corre tanto. Fizeste, desgraa, hum erro Em vires do Amor valer-te: Como ha de elle socorrer-te, Se eu j conheo o seu ferro? sua voz o ouvido cerro: Custou-me sangue o escapar-lhe: E para melhor provar-lhe, Que eu j sou dos seus cortados, Sinaes inda mal fechados Hei de parar, e mostrar-lhe. [55] Tu s me dste hum desgosto, Outro j no pdes dar-me: J agora sempre has de achar-me A mesma alma, e o mesmo rosto, Se em ferros por ti for posto, Vers que ao som delles canto; Se envolta em sanguineo manto Me pes a morte diante, Notars no meu semblante, Que de ve-la no me espanto. [56] MOTE. Os meus olhos a chorar. GLOZA. Pranto inutil so os meios Das pessoas desgraadas: Pagai, lagrimas cansadas, Pagai delictos alheios. J que de ouro cofres cheios Nunca pude a Nize dar, J que devo em fim pagar Culpa, que s tem meus fados, Fiquem sempre condemnados Os meus olhos a chorar. [57] MOTE. J disse tudo a Cupido. GLOZA. Na vossa gentil figura Mil des natureza pz: Todos cuido que sois vs A Deosa da Formosura. Venus mil vinganas jura, Vendo o seu culto esquecido: Vai de settas o ar ferido. Senhora, andai cuidadosa, Que a louca Deosa invejosa J disse tudo a Cupido. [58] MOTE. Distancias, e saudades. GLOZA. As nodosas carvalheiras, Que assombro hermas estradas; Altas rochas, penduradas Sobre medonhas ribeiras; Duras, ngremes ladeiras, Escuras concavidades; So as tristes soledades, A quem meu cansado peito Conta o mal, que lhe tem feito Distancias, e saudades. [59] MOTE. Cantarei alegres penas, Que cerco meu corao. GLOZA. Que eu cante alegre me ordenas? Que cruel, que dura Lei! Porm obedecerei, Cantarei alegres penas: Por todo o modo envenenas A minha infeliz paixo; Tu dras valor aco De eu affectar alegrias, Se visses as agonias Que cerco meu corao. [60] MOTE. Nada no mundo figura, Quem no chega a ter amor. GLOZA. Deos de Amor, sempre a ventura De tuas mos pendente vi: Tu pdes tudo; sem ti Nada no mundo figura. Recolhe da terra dura Fructo immenso o Lavrador; Mas occulto dissabor No fundo da alma lhe diz, Que no chega a ser feliz Quem no chega a ter amor. [61] MOTE. Amor para me prender Os teus olhos me mostrou. GLOZA. Mil bellezas me fez vr, Porque alguma me rendesse, No sabia o que fizesse Amor, para me prender. Mil laos me foi tecer, Laos vos, que em vo me armou; Provadas settas tirou, Que hia em veneno ensopando; Porm s me rendi quando Os teus olhos me mostrou. [62] MOTE. A minha felicidade. GLOZA. Cesse, Nize, o teu rigor: Esse odio injusto reprime: Perdem o nome de crime Os crimes que faz amor. Torne ao seu antigo ardor A nossa antiga amizade: Adoa a rigoridade Do penoso estado meu, E faze c'hum riso teu A minha felicidade. [63] MOTE. Quem adora occultamente Sem declarar seu amor Sente mil ancias no peito, Vive cercado de dr. GLOZA. Por que barbara razo Hum justo amor se reprime, E ha de julgar-se por crime Pr na boca o corao? Claros olhos ferir vo Hum corao innocente; Nem ao triste se consente Dar sinaes de seu cuidado! Deoses! quanto he desgraado Quem adora occultamente! [64] No peito a chamma accendida As entranhas lhe abrazou; Mas da ingrata, que a ateou, He crime ser percebida. Se deita sangue a ferida vista do matador, Vejo de que nova dr Sente o triste a alma cortada, Fallando co'a sua Amada Sem declarar seu amor! Arde em hum fogo escondido: Pois se conta o seu cuidado, Alm de ser desgraado, Chamo-lhe em cima atrevido. At quasi tem perdido De olhar o livre direito; Vive sempre contrafeito; E entre mil contrarios posto, Mostra alegria no rosto, Sente mil ancias no peito. [65] Busca alegres companhias, Por curar o mal que sente: Entra a ingrata de repente, Desperto-se as cinzas frias. Ternas Arias, Synfonias, Tudo aviva o seu amor; Mas dos fados o rigor Tem sobre elle taes poderes, Que no meio dos prazeres Vive cercado de dr. [66] MOTE. Nos olhos o amor explico Que trago no corao; Que no se pde occultar No peito a doce paixo. GLOZA. Mandas-me, Anarda, em vo Os olhos meus reprimir; Que elles sempre ho de seguir O impulso do corao. Sem querer sinaes dar Do affecto, que no publco: Co'a boca, que mortifico, Que importa que o no revele, Se eu, por mais que me acautele, Nos olhos o amor explico? [67] Amor os faz descuidados: Em vo, Anarda, os abaxo; Pois dahi a pouco os acho Outra vez nos teus pregados. Trazellos mais castigados No est na minha mo: Esta continua omisso, Este erro, como tu dizes, He hum fructo das raizes, Que trago no corao. De que serve olhar a medo, E fallar acautelado, Se hum suspiro descuidado Vem descobrir o segredo? Este artificio, este enredo Pouco poder durar: Meus olhos me ho de entregar; Que hum amor na alma arraigado He como hum fogo ateado, Que se no pde occultar. [68] Tempo, e arte tenho posto Para disfarar-me em tudo: Mas sae-me perdido o estudo, Em vendo o teu lindo rosto. Disfara-se mal hum gosto, Que nasce do corao: Tambem tu dessa lio Talvez que bem no sahiras, Se assim como eu sentiras No peito a doce paixo: [69] MOTE. Por passos sem esperana, Onde me leva o dezejo? GLOZA. Vo pensamento, descana, Reconhece as foras minhas: Tu no sabes, que caminhas Por passos sem esperana? Junto da corrente mansa Me pes do dourado Tejo: C de longe o sitio vejo: Mas no devo hum passo dar, Que eu no mereo chegar Onde me leva o dezejo. [70] MOTE. Eu j tenho exp'rimentado As minhas inclinaes. GLOZA. Que nunca teu doce agrado De amizade simples passa, Por minha grande desgraa Eu j tenho exp'rimentado. Antes odio declarado, Que estas equivocaes! Quero as ternas espresses De que as almas se alimento: Com menos no se contento As minhas inclinaes. [71] Ao mesmo Mote outra GLOZA. Senhora, eu tenho encontrado No teu amor mil intrigas: No preciso que mo digas, Eu j tenho exp'rimentado. So premios do meu cuidado Enganos, e ingratides; E por occultas razes So, inda que mo no dizes, To justas, como infelizes, As minhas inclinaes. [72] MOTE. Ouvi, Senhora, ouvi Os suspiros de huma voz, Que quando por vs suspira, Aspira smente a vs. GLOZA. Chegou finalmente a hora De saberdes quem ......Buy Now (To Read More)

Product details

Ebook Number: 36608
Author: Tolentino, Nicolau
Release Date: Jul 3, 2011
Format: eBook
Language: Portuguese

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